Algarve close up
Nada de suspense. O trabalho da Algarve Film Commission é promover a região como zona privilegiada para produções de audiovisual.
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Ligue a câmara. Faça zoom. Não precisa de luzes. Clima temperado de tipo mediterrânico, três mil horas de sol por ano, pouca chuva, 150 kms de linha costeira, parques naturais, serras, proximidade dos grandes centros europeus, edifícios históricos a cada esquina. O Algarve tem atributos naturais e de património óptimos para a indústria do cinema e da televisão. É um facto.
Mas para ser verdadeiramente film friendly precisa de mais. Precisa de facilitar a vida às produções, precisa de descobrir ou formar técnicos locais, precisa de oferecer incentivos fiscais. E precisa de chamar o pessoal do cinema. Dentro e, sobretudo, fora do país.
“Bem, para fazer essa promoção não faz sentido colocar outdors no meio das cidades ou colar grandes anúncios nos autocarros”, diz Paulo Pereira, presidente da Algarve Film Commission. A não ser, claro, que se trate da “carreira” de Beverly Hills, que passa à porta de importantes produtores e celebridades de Hollywood.
“O nosso trabalho é um processo cirúrgico. É feito de contactos personalizados, motivando guionistas, realizadores e produtores de todo o mundo a conhecerem a região e a imaginarem as suas histórias ali”, explica. E não resiste a enumerar as vantagens do Algarve: mais horas de luz solar por dia representam mais produtividade para as equipas de filmagem. A diversidade de paisagens permite localizar vários tipos de argumentos. Há as praias com areais extensos, dunas ou escarpadas, as serras, os vestígios romanos, a herança muçulmana, os castelos da reconquista cristã e as estruturas deixadas pela epopeia dos descobrimentos. Sagres é um símbolo único, Tavira um cenário romântico, Vila Real de Santo António representa o século XVIII. E depois há questões logísticas, como a proximidade. o Algarve está a duas horas e meia de voo de Londres e Paris.
Todos ganham
Foi a ideia de potenciar a região do extremo sul do país como pólo da indústria audiovisual que esteve na origem da criação da Algarve Film Commission. Para além dos tais contactos a bisturi, organizam cursos de formação para técnicos, de forma a criar uma bolsa de profissionais na região. E através da rede The Star Tracker, o projecto internacional de identificação de talentos portugueses espalhados pelo mundo, descobriram muita gente em cargos importantes desta indústria por toda a Europa, África do Sul, Canadá e nos Estados Unidos: “Temos, naturalmente, contacto facilitado com estas pessoas, que podem ser uma janela para o Algarve. Equacionam enviar projectos para cá, falam de nós a outros profissionais. São importantíssimos”, diz Paulo Pereira.
Mas o que é que o Algarve pode ganhar com tudo isto? A verdade é que desde a ideia inicial até à estreia na sala de espectáculos um filme envolve cerca de 100 profissões. Desde o escritor ao projeccionista. Pelo meio há carpinteiros, electricistas, advogados, contabilistas, figurantes, costureiras, editores de imagem… Ganha ainda a hotelaria, os restaurantes, as empresas de catering e o comércio.
O pacote de lucros inclui ainda a visibilidade da região, o postal ilustrado na tela do cinema. Estudos de mercado demonstram que uma grande percentagem dos turistas que visitam Paris, fazem-no porque viram a cidade num filme. O Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen teve efeitos comprovados no turismo da cidade e, passados dez anos, O Senhor dos Anéis continua a levar visitantes à Nova Zelândia. Já para não falar do Mamma Mia, verdadeiro spot publicitário de duas horas à Grécia.
Uma caravela em Cannes
Há sítios onde é obrigatório estar presente. Em 2008, a equipa da Algarve Film Commission deslocou-se ao Mercado Internacional do Filme de Cannes, um evento paralelo ao Festival de Cinema, em grande estilo. Entraram no porto da cidade, sobrelotado de vulgares iates de 50 metros, à proa da Caravela Boa Esperança, réplica perfeita das embarcações usadas nos descobrimentos portugueses. Foi uma pedrada no charco. Houve um virar de cabeças e, nos dias seguintes, a caravela recebeu a visita de profissionais de todo mundo e foi sala de reuniões da Ibermedia, que representa 17 países ibero-americanos.
“O processo de concretização de um filme é longo. O Forrest Gump demorou dez anos, o Avatar demorou 15. É preciso desenvolver a ideia, escrever o guião, estruturar o financiamento, organizar o elenco, ver quando os actores estão disponíveis.E nós queremos captar essas produções durante este processo”, confessa Paulo Pereira. O Festival de Cinema de Sevilha, que tem uma feira dedicada a localizações, é outra das aposta da Algarve Film Commission.
Através destas estratégias, o Algarve recebeu nos últimos três anos 50 produções, entre ficção, documentário, publicidade e fotografia. As equipas vieram de cantos variados do planeta. E fizeram de tudo: um anúncio para o Banco de Angola, um filme de reconstituição histórica espanhol, uma publicidade chinesa a telemóveis, um filme de demónios alemão, mais uma publicidade japonesa… Longe vão os tempos em que tudo o que se filmava na região tinha de ter no título as palavras pesca, amendoeiras, lendas, sardinha, Sagres, mouras e navegadores. O feitiço tinha já sido quebrado em 1969, quando foram ali realizados dois filmes de ficção científica. O espanhol SOS Invasión e o britânico Doppelgange.
O Algarve como duplo
Uma das vantagens apresentadas pela Algarve Film Commission é que a região pode servir para duplo de outros pontos do globo. “Já nos têm pedido paisagens que se pareçam com a Florida, com a América do Sul e com Marrocos. Há quem diga que o Algarve dá muito bem para ser Afeganistão”. Paulo Pereira aposta forte na personalidade esquizofrénica da paisagem algarvia. O Porto da Baleeira, em Sagres, já serviu para representar o Rio de Janeiro de inícios do Século XIX − depois de desmontados alguns cadeeiros eléctricos e escondidas bóias de plástico − e para funcionar como duplo de um porto holandês. O filme de produção sueca Millenium II estreou em Outubro passado. A adaptação ao cinema do best-seller de Stieg Larsson está a mover multidões. Só na Escandinávia teve 480 mil espectadores no primeiro fim de semana de exibição, que assistiram a cenas filmadas na Praia da Galé. Um bilhete postal algarvio, sem dúvida. Mas que estava ali a representar uma praia das Caraíbas.
Por Manuela Carona
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Então e as tretas sobre os estúdios? Isso anda ou é só para meterem dinheiro dos portugueses no bolso?