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    Natália Mallo – A coleccionadora de sons

    2010/04/01  

    A música é uma desculpa para a viagem, a gastronomia é um pretexto para escrever. Nascida na Argentina, com residência no Brasil e sempre em movimento, Natália Mallo passou recentemente por Portugal.


    Acontece. Olhamos para uma cara, ouvimos um nome e logo que começamos a conversar descobrimos que, afinal, estamos perante várias pessoas. Natália Mallo é única nessa pluralidade. O encontro foi marcado para o bar do Hotel Bairro Alto, num intervalo da maratona gastronómica em terras lusas. Não há tempo a perder. Daqui a pouco, Natália Mallo tem de apanhar um táxi para ir almoçar ao novo restaurante do chefe Vítor Sobral. Nos últimos dias, Natália tem sido sobretudo estômago. Sem desprimor para a cabeça e o coração.

    As primeiras impressões não garantem clareza. Em que ficamos? Cantora de tango ou estrela de música pop? Buenos Aires ou São Paulo? “Como te vá” ou “Tudo legal”? Tropicalismo avant-garde ou o charme da velha Europa? Compositora ou cozinheira? Sound designer ou blogger? Hotel de 5 estrelas ou sofá de amigos? Menina ou mulher?

    Não há respostas satisfatórias, apenas uma história para contar. Como pano de fundo: uma geografia itinerante. Natália Mallo nasceu, em 1974, na cidade de Buenos Aires. A viagem inaugural foi feita aos seis anos de idade, cruzando a Argentina de alto a baixo em direcção à Patagónia. Uma distância esmagadora feita de automóvel, sozinha com o pai, enquanto os dois irmãos mais velhos seguiam de avião. “O divórcio dos meus pais tinha sido meio complicado e ele ofereceu-nos essa aventura como uma compensação, um carinho. Ficou uma lembrança muito forte.” Lembrança de pescar trutas, explorar os bosques, cortar a cauda de lagartixas, beber a água dos lagos enquanto nadava.

    O pai, Ernesto Mallo, romancista, contagiou-a assim com o desejo de partir. Partir como princípio de vida. Quando estava por casa, o senhor Mallo tinha sempre música a tocar. Para além da panóplia pop da época, com os Beatles na liderança, a voz de Maria Bethânia era obrigatória. Havia um disco em especial: Mel. “Eu era pequena e cantava tudo, palavra a palavra, sem saber falar português.” Foi assim, pousando a agulha do gira-discos nos 33 rotações, que o pai contagiou a filha com o prazer da música. Seguiu-se a matrícula no Conservatório de Buenos Aires – aulas de guitarra clássica. “A minha viola foi feita numa fábrica vizinha da minha casa. Eu ia lá todos os dias para seguir o processo”, conta.

    Tinha aprendido a ler aos três anos, cobaia e prova provada da eficácia de um método de alfabetização inventado pela mãe – professora de espanhol – que o ensaiou na própria filha. Na faculdade, Natália estudou jornalismo como quem cumpre pena, até ganhar juízo e desistir. Teve uma curta carreira de cantora de bares, acompanhamento de copos a tilintar, fraca visibilidade devido ao nevoeiro de fumo de tabaco, público desatento, música brasileira no violão, na época em que ouvia Chico Buarque, Caetano Veloso, Djavan e Paralamas do Sucesso. Não é ofício que se deseje a ninguém.

    A mudança bateu à porta no momento ideal. Uma amiga a viver em São Paulo, disse-lhe que tinha um lugarzinho para ela na mega-metrópole brasileira. O centro de gravidade do Brasil, já lotado com 19 milhões de habitantes, recebeu-a de braços abertos. “E tudo foi rolando.” Acredita que caiu no bairro certo, na turma certa, no meio da cena musical paulista dos anos 90, conheceu Chico César e foi apresentada a Zeca Baleiro. Foi então que Natália mergulhou a fundo numa carreira musical: formou a banda Trash Pour 4, o grupo de tango gatoNegro e lançou o disco a solo qualquer lugar.

    No Brasil há 14 anos, Natália Mallo diz que quando começou a sentir uma “coceira”, o desejo de se meter ao caminho, decidiu que iria trabalhar com projectos artísticos por todo o mundo. Já sonorizou esculturas, fez sound design para exposições, bandas sonoras para bailado e teatro. A Europa tem sido uma revelação. Uma auto-revelação: “Vir aqui é como visitar a minha bisavó. Em Espanha eu entendi a Argentina. Em Portugal entendi o Brasil. E quando você compreende a essência, aceita melhor”.

    Passeia-se pelo Velho Continente com a versão em português do guia Gallimard debaixo do braço. Mas só lhe interessam os mapas e as páginas sobre restaurantes. Diz que faz turismo sem compromisso. Caminha incessantemente. Quando a cidade o permite, pedala uma bicicleta. Berlim e Manhattan são o sonho de uma ciclista de ocasião. As sete colinas de Lisboa são para esquecer. Não entra em igrejas, mas explora as prateleiras dos supermercados como quem aprecia um altar barroco. O design das embalagens, os produtos locais, os sabores dos iogurtes, a apresentação do peixe: “As lojas japonesas são um mistério porque você não sabe se está a comprar uma bisnaga de queijo fundido ou pasta de dentes. Nos EUA, os produtos biológicos são uma obsessão. O Sainsbury’s, em Londres, é tão deslumbrante que levei horas para comprar meia dúzia de coisas. E é você mesmo quem passa as compras pela registadora, não é preciso controlar a honestidade de ninguém”.

    No capítulo dos templos religiosos, abriu uma excepção para entrar na Capela dos Ossos, em Évora, e saiu impressionada. “Achei legal os monges lembrarem assim o efémero da vida”, comenta. No capítulo dos mistérios nipónicos, lembra a visita a um restaurante que servia crista de galo e pequenas lulas cruas. Vivas. “Você tinha de matá-las com os dentes antes de engolir. Para mim foi a primeira e a última vez.” A experiência radical teve como cicerone Maki Nomya, vocalista dos Pizzicato Five, que Natália conheceu quando fez espectáculos dentro do projecto “Brasil Pop Culture Now”.

    A máquina fotográfica não é presença obrigatória na mala da viajante, mas o pequeno gravador digital nunca falha. É uma coleccionadora de sons. Em Lisboa recolheu o chiar persistente dos eléctricos, as conversas vagarosas nos cafés, o silêncio gritante no Museu do Chiado. “Gravei os rumores de um shopping no centro da cidade. Você não entende nada do que está a ser dito, mas tem um murmúrio que é diferente do som de um shopping em São Paulo”. São texturas que recorta, mistura e usa nas suas peças musicais.

    Na sua geografia sonora, nunca encontrou nada como a vitalidade do metropolitano de Nova Iorque. “É uma enciclopédia de world music e ao vivo.” Numa só estação encontra-se um violinista clássico, seguindo-se um tocador de balafon africano e depois um trompetista de jazz. Uma volta ao mundo barata e rápida.

    por Manuela Carona


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    Comentários

    Uma Resposta a “Natália Mallo – A coleccionadora de sons”

    1. Ernesto Mallo em 2010/04/18 11:09 pm

      Pai orgulhoso de sua filha.

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