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    Vinhos raros

    2010/04/01  

    Colares, com vista para o mar e para a serra de Sintra, é a região onde se produz um dos vinhos mais interessantes e raros de Portugal. As vinhas estendem-se pelo chão de areia, dando origem a tentáculos vegetais que dão à viticultura local uma especificidade única no mundo.

    Não há registo que indique com precisão quando aqui se plantaram as primeiras vinhas, mas supõe-se que deverá ter sido D. Afonso III quem, no século XIII, terá trazido as primeiras cepas de França, devido à semelhança com os vinhos daquele país. No entanto, e apesar de ser por diversas vezes referenciado ao longo dos séculos, o vinho de Colares cresceu em fama e valor a partir de 1865, data em que os vinhedos do país foram devastados pela filoxera, a terrível praga que devastou as vinhas europeias em finais do século XIX. Julga-se que a praga não atingiu Colares devido às condições arenosas dos terrenos, em que o temido insecto não encontrou modo de penetrar. Situação inédita, visto que outras zonas vinícolas implantadas em solos de areia, como as existentes, por exemplo, na Península de Setúbal, sofreram os malefícios desta doença. Foi por estarem implantadas a grande profundidade, muitas vezes a mais de dez metros, que as vinhas de Colares escaparam, tornando-se este, na época, o principal vinho de mesa nacional, referenciado por diversas vezes em importantes estudos de viticultura e até na nossa literatura, em particular, na obra queirosiana.

    Actualmente, a área de cultivo em chão de areia dos vinhos de Colares atinge pouco mais de vinte hectares, já que a pressão urbanística tem vindo a contribuir para a sua quase extinção. Aqui é a casta tinta Ramisco que traduz a fama dos vinhos, mas a sua plantação continua a exigir um enorme esforço dos trabalhadores, face à profundidade a que muitas vezes se colocam os bacelos. Por outro lado, a condução da vinha também está condicionada em função do local de plantação e da sua exposição marítima. As plantas têm de ser conduzidas em formas baixas, com protecções que impeçam o efeito nefasto dos ventos salgados do mar. Tudo isto dificulta hoje a vitivinicultura de Colares, quer pelas exigências de mão-de-obra, quer pelo custo.

    Cincinnato da Costa, reputado engenheiro agrónomo de finais do século XIX, considerou a Ramisco uma das castas tintas mais notáveis de Portugal, pelo sabor e perfume que imprime aos vinhos. Nos seus livros elogia ainda a sua “frescura, graça, delicadeza e suavidade”. Diz ele que nada lhes falta, “quando oriundos de boas lavras, para serem vinhos completos e equilibrados”. Os vinhos de Ramisco têm geralmente teores alcoólicos baixos (entre dez e meio a doze por cento de volume), acidez elevada e grande taninosidade, o que impede o seu consumo com prazer, enquanto jovens, requerendo uma longa maturação. As colorações não são por norma intensas e os aromas podem inicialmente lembrar amoras silvestres e alguma resina. Na boca são vinhos frescos e de forte adstringência. Actualmente, ainda se conseguem encontrar de boa saúde alguns velhos vinhos de Colares. E vale sem dúvida a pena a experiência de beber este vinho bem diferente dos demais…

    Por Maria João de Almeida

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