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    Impetus – Despidos a rigor

    2010/06/01  

    Há uma marca portuguesa a rivalizar com a roupa interior da Calvin Klein e da Dolce & Gabbana nas prateleiras do El Corte Inglés, das Galeries La Fayette ou do Printemps. Conheça a história de sucesso da Impetus, líder do mercado português de moda íntima.

    Mesmo com o auxílio do GPS, não é fácil descobrir o Lugar Fonte de Cima, situado numa freguesia com pouco mais de dois mil habitantes, no concelho de Barcelos, no norte de Portugal. Cansados de nos perder, pomos de lado a tecnologia e rendemo-nos ao velho ditado: “Quem tem boca, vai a Roma”. A primeira tentativa sai, contudo, frustrada. Lugares há muitos, mas o da Fonte de Cima ninguém parece conhecer. O melhor mesmo é esquecer a morada. “A Impetus? Sabe dizer-me onde é a Impetus?” insistimos. “A fábrica?! Não é por aqui. Têm que voltar para trás”.

    Quando por fim chegamos às instalações do líder do segmento da moda íntima em Portugal – vasto complexo que inclui uma fábrica, escritórios, cantina e até um posto médico para os 352 funcionários que aqui trabalham – depressa percebemos que estamos numa empresa que não se perdeu no caminho para o sucesso. Daqui saem todos os dias milhares de peças de roupa interior de gama média-alta, que rivalizam com marcas como a Calvin Klein ou a Dolce & Gabbana nas lojas do El Corte Inglés, na Península Ibérica, nas Galeries La Fayette e Printemps, em França, ou no El Palacio del Hierro, no México.

    O que é hoje um pequeno império de dez empresas, cerca de 800 trabalhadores e quase 10 milhões de peças produzidas por ano, começou numa casa velha, em Esposende, no Norte de Portugal. “O corte funcionava na cozinha, na sala era a confecção, num dos quartos o armazém”, recorda o fundador e presidente da empresa, Alberto Figueiredo, hoje com 59 anos. Estávamos em Dezembro de 1973. Duzentos e cinquenta contos na moeda antiga (1250 euros) e seis funcionárias iniciavam uma aventura de sucesso que se fez a custo e não sem alguns percalços. “Só trabalhávamos para exportação e, com a revolução do 25 de Abril, cancelaram-nos as encomendas. Ficámos com 350 contos (1750 euros) de mercadoria, que acabámos por vender a feirantes por 80 (400 euros). Tivemos que começar do zero”.

    À época, a empresa minhota produzia um pouco de tudo dentro da fileira têxtil, incluindo roupa interior “em cores berrantes, que cá era impensável vender”. Contudo, Figueiredo não demorou a perceber que só uma estratégia permitiria ao negócio crescer entre a enorme concorrência, nacional e internacional, do sector: apostar na especialização e criar uma marca própria capaz de dar valor acrescentado à produção da fábrica. Foi assim que, em 1990, nasceu a Impetus, orientada para o segmento da moda íntima masculina e para o mercado externo. “Foi sempre essa a nossa vocação. Desenvolvemos o nosso potencial, primeiro no estrangeiro e só depois em Portugal, onde também estamos a crescer”, explica Alberto Figueiredo. A marca exporta hoje cerca de 90% do que produz.

    Qualidade e design
    Numa década, a Impetus conquistaria um lugar no top ten europeu dos produtores de moda íntima masculina. Hoje a marca tem cerca de 15 mil pontos de venda em 35 países, da Europa Ocidental à Grécia, da Escandinávia aos Estados Unidos, da Rússia à Coreia. Foi, por exemplo, a primeira marca têxtil portuguesa a entrar na China, onde chegou há cinco anos por convite de um centro comercial de luxo, o Beijing Lufthansa Center. Actualmente, está presente em todos os principais centros comerciais do país. A comercialização é feita, sobretudo, através do comércio especializado, multimarca, e das grandes cadeias retalhistas de gama média-alta. A Impetus é, por exemplo, a marca mais vendida do seu segmento nas lojas do El Corte Inglés em Portugal e a terceira mais vendida da rede da cadeia espanhola em Espanha.
    A chave do sucesso, acredita Alberto Figueiredo, está no código genético da Impetus, que mistura duas componentes fundamentais: a qualidade e o design das peças. “Num primeiro instante, é importante o cliente olhar e gostar. Se não gostar da peça, não compra. Mas, se a peça for muito bonita e vestir mal, então perdi um comprador. A marca impôs-se pela satisfação do cliente. É por isso que nos orgulhamos de ter seguidores fiéis, que compram Impetus há muitos anos”.

    É esta fidelidade, sublinha o presidente da Impetus, que tem permitido à marca resistir à crise. “Apesar da crise, não estamos a descer [nas vendas], até porque os nossos produtos se dirigem a uma classe média-alta, com algum poder aquisitivo. O objectivo é crescer. Queremos conquistar mais, reforçar os mercados onde estamos presentes e abrir-nos a novos mercados”.

    Aposta na diversificação
    A estratégia de crescimento da Impetus passa também pela segmentação da sua oferta. No ano passado, a empresa incorporou duas novas marcas no catálogo, ambas de origem francesa: a Coup de Couer (que já pertenceu à Lacoste), líder do sector denominado por “funny”, com peças de motivos divertidos destinadas a toda a família; e a linha de moda íntima da Éden Park, marca inspirada no mundo do rugby, que provém do sector do pronto-a-vestir, “uma espécie de Ralph Lauren francesa, mas um pouco mais elegante, mais chique”.

    “A Impetus começou por ser uma marca para o sector da moda íntima masculina, mas abrimo-nos depois a outros sectores, como o beachwear e o segmento feminino. A partir do momento em que a marca se tornou totalmente abrangente, uma marca total look, a empresa decidiu começar a segmentar a sua oferta”, explica Alberto Figueiredo. A aposta permitirá também introduzir a Impetus em mercados onde a Coup de Couer e a Éden Park estão já presentes.

    A empresa está ainda aberta a outras formas de comercialização, nomeadamente a distribuição própria. Nesse sentido, abriu uma “flagship store” Impetus em S. João da Madeira, que servirá para estudar o desenvolvimento da gama dentro de um espaço próprio. “Estamos a analisar o comportamento do consumidor e a rentabilidade de um espaço administrado por nós. Equacionamos no futuro esta possibilidade, mas, neste momento, os dois canais prioritários são o comércio especializado, multimarca, e os grandes department stores”. Mais recentemente, a Impetus inaugurou a sua loja on-line (disponível em www.impetusunderwear.com), por agora com distribuição apenas para Portugal, mas, em breve, para outros países europeus.

    A preocupação da Impetus com a qualidade vê-se nos pormenores. Aos 59 anos, o presidente da empresa continua a experimentar cada peça nova que sai do gabinete de desenvolvimento da empresa. “As de homem, claro”, esclarece com um sorriso. “Os estilistas, às vezes, são como os arquitectos: fazem a casa de que eles gostam, não a que agrada a quem a vai utilizar. O bom arquitecto é aquele que faz a casa de que gosta, mas que vai de encontro a quem a vai habitar. Da mesma forma, as nossas peças devem adaptar-se a quem as vai vestir”.

    Por Nelson Marques

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