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    10 Básicos do Algarve

    2010/07/30  

    O clima doce e as belezas naturais dão-lhe fama. A história conferiu-lhe personalidade. Foi princesa e foi escrava. Foi romana, árabe, reconquista cristã, tesouro cobiçado e amante desprezada. Foi considerada segundo reino pela monarquia, só integrado plenamente no país a partir da implantação da República. No Algarve de hoje, encontra-se o mundo inteiro e o Portugal mais tradicional.

    1 – Sol e praia

    É o bilhete-postal do Algarve. O sol brilha mais de três mil horas por ano e a linha costeira estende-se ao longo de 200 km de praias diversas. A costa sul, virada para África, está protegida dos ventos frios do norte por barreiras montanhosas e as suas águas tépidas são influenciadas por correntes do Mediterrâneo. O oeste, mais exposto à força do Atlântico, tem orgulho no seu carácter bravio. Em suma, há de tudo. E com qualidade certificada pelas distinções do Programa da Bandeira Azul europeia, que anualmente testa a água do mar, a gestão ambiental das praias, a sua segurança e os serviços. Em 2010, o Algarve é mais uma vez o recordista nacional, com 48 bandeiras azuis atribuídas – seja em praias com falésias, enseadas, piscinas naturais, areais a perder de vista ou baías rochosas. Tanta escolha cria no viajante uma esquizofrenia lúdica e sem efeitos nefastos. Que fazer? Arriscar um surf nas ondas perfeitas de Sagres; ir à Praia da Rocha observar os efeitos do sol escaldante nas costas dos turistas desprevenidos; fazer nudismo sem espectadores nos areais desertos de Tavira; passar o dia a brincar à família Robinson na ilha da Culatra; ou deixar os miúdos testarem o barco de borracha nas águas calmas da praia Dona Ana, em Lagos?

    2 – Herança muçulmana

    Tariq Ibn Ziyad atravessou o tumultuoso estreito que separa a África da Europa decidido a vencer. Chegado a Gibraltar, o general omíada incendiou os barcos em que viajara com o exército de berberes e apresentou-lhes duas opções: ou se atiravam ao mar para morrerem afogados ou conquistavam a Península Ibérica. Estava-se no ano de 711 e iniciava-se assim o domínio muçulmano que, no Algarve, persistiu por cinco séculos. O Al-Gharb Al-Ândaluz (ou ocidente andaluz) recebeu influências árabes, ainda vivas nos terraços das casas, nas chaminés trabalhadas como rendas, nos coloridos azulejos, nos laranjais e nos campos de amendoeiras. Os nomes de localidades começados por “Al” são de origem moura e a língua portuguesa ganhou nessa época 600 novas palavras. Os pomares da região eram famosos, desenvolveu-se a cultura da oliveira, os figos e as uvas enchiam mercados. Silves, a capital, era conhecida como a “Bagdade do Ocidente”, um centro de cultura onde se cruzavam historiadores e criadores de poesia árabe-andaluza. O geógrafo Idrissi descreveu assim a antiga Xelb: “É bonita e nela se vêem elegantes edifícios e mercados bem fornecidos. A população é constituída por árabes do Iémen. Sabem dizer versos e em geral são eloquentes e hábeis”.

    3 – Ilustres frequentadores

    Se a cobiça é um pecado, o Algarve não poupa almas ao inferno. O solo fértil, os rios navegáveis e a posição estratégica desde sempre atraíram visitantes. Os fenícios ancoraram nas suas costas, os cartagineses vieram atrás, os romanos chegaram em perseguição destes e acabaram por ficar. Por fim, os mouros conquistaram o coração algarvio. Os cristãos é que não esqueceram as terras do Sul e cavalgaram Portugal abaixo até serem donos do território por inteiro. Quando tudo parecia ter acalmado, alguém inventou a moda de ir à praia e nasceu o turismo. Nos anos 60, o paraíso algarvio chamou a atenção de estrelas que procuravam descanso e anonimato. Paul McCartney escreveu o sucesso “Yesterday”, dos Beatles, durante a viagem de cinco horas de carro entre Lisboa e Albufeira, por estradas primitivas. Estava-se em 1965 e McCartney ia descansar para casa de Bruce Welch, dos Shadows. Quem já lá estava era Sir Cliff Richard, que recentemente apostou em produzir vinho na sua Quinta do Moinho. Steve Harris, baixista dos Iron Maiden, passa boa parte do ano na região, onde explora o Eddie’s Bar, recheado de parafernália da banda, na aldeia de Santa Bárbara de Nexe. Ayrton Senna, o grande campeão de Fórmula 1, dizia que só no Algarve é que se sentia “normal”, passeando à vontade na praia e trocando impressões com os pescadores que chegavam do mar. Actualmente, a região algarvia, acolhe a socialite portuguesa (e não só) que vai a banhos no verão. Entre a Quinta do Lago (Almancil), a praia do Ancão (onde fica o famoso restaurante Gigi), Vilamoura e a praia dos Tomates (Albufeira) podem encontrar-se celebridades como Carolina do Mónaco, José Mourinho, Luís Figo, Felipe de Bourbon, Mark Knopfler ou George Michael.

    4 – Passado e presente

    Na praça onde funcionou o primeiro mercado de escravos da Europa, está um homem-estátua à espera do tilintar de uma moeda. O centro de Lagos é uma montra de artistas de rua, bancas de artesanato, tatuagens temporárias, gente de um lado para o outro e esplanadas com vista para este movimento perpétuo. A grande epopeia dos descobrimentos começou aqui. Gil Eanes, natural da cidade, partiu de Lagos para dobrar o Cabo Bojador, em 1434, dando o tiro de partida para a exploração do litoral africano. A Igreja de Santo António, obra-prima do barroco apreciada pela capela-mor em talha dourada, resistiu ao grande terramoto de 1755 para testemunhar o esplendor de outros tempos. Também em Faro, capital do Algarve, o terramoto tem costas largas. As movimentadas ruas só para peões, cheias de lojas e restaurantes, já não se lembram que Ossónoba foi o seu nome romano. Que a tardia reconquista cristã feita em 1249 pelo rei Afonso III trouxe prosperidade. Que o ataque das tropas inglesas do Conde de Essex, um favorito de Isabel I, as deixaram esventradas, saqueadas e com a biblioteca do paço feita em cinzas. Quando a terra tremeu e a sombra de destruição voltou a Faro, a cidade lutou pela sobrevivência mais uma vez.

    5 – Serra

    Fronteira natural com o resto do país, as serras algarvias isolaram a região, mas também lhe deram carácter e personalidade. Hoje, Espinhaço de Cão, Caldeirão e Monchique representam um outro Algarve, com tempo para pensamentos bucólicos e espaço para a ruralidade. Monchique é como um enorme jardim romântico que Lord Byron muito teria apreciado, na cauda de um passeio de BTT em equilíbrio instável por grandes penhas, raízes despidas, ribeiros em socalco e cascatas de espuma. Ali se encontram medronheiros, carvalhos, pinheiros e castanheiros e, da Fóia – o ponto mais alto do Algarve, com 902 metros – descem socalcos feitos pelos agricultores, como se de um monte com saias se tratasse. Daqui se avista do Alentejo até ao mar. Quem se deixar perder entre a vegetação luxuriante pode até dar de caras com uma tribo de “índios”, vestidos com peles de animais e abrigados em tipis. Também em Espinhaço de Cão, nas aldeias isoladas entre os medronheiros, eucaliptos e vales férteis se encontram bolsas de novos habitantes, que na paisagem intacta fazem o culto do meio rural. Os tradicionais pastores da serra do Caldeirão há muito que guiam os rebanhos de ovelhas e cabras pelos campos de esteva e rosmaninho da maior cordilheira do Algarve.

    6 –R ia Formosa

    Separando a terra firme do oceano encontra-se um sistema lagunar a que os ventos, as correntes e as marés não dão descanso. Chamaram-lhe Ria Formosa com justiça e é protegido como Parque Natural desde 1987. É habitat de flamingos, águias de asa redonda, galinholas e guarda-rios. O caimão, espécie rara que escolheu este canto para se reproduzir, é o símbolo do parque. As salinas milenares desenham rectângulos brancos na paisagem e produzem flor de sal de grande qualidade. A praia não está à mão de semear, e nalguns locais é possível atravessar a ria à boleia no barco de um pescador. Depois, é preciso caminhar através das dunas baixas. O prémio compensa: são areais imensos de amarelo claro, às vezes com um bar de apoio, outras sem sinais de presença humana. Em Pedras de El-Rei, um pequeno comboio vermelho faz o transporte para a praia do Barril, onde dezenas de âncoras gigantes dispostas na areia lembram os tempos da pesca do atum. A bela cidade de Tavira é um exemplo de preservação arquitectónica, famosa pelo enorme número de igrejas, pelos telhados de “quatro águas” e pela ponte romana sobre o Rio Gilão.

    7 – Paisagem branca

    Foi há mais de mil anos que o Algarve se pintou de branco. Conta a lenda que o rei mouro Ibn-Almundim avistou, entre um grupo de prisioneiros de batalha, os olhos azuis de uma princesa do Norte. Gilda foi resgatada dos calabouços e feita rainha num casamento que animou a região com muitos dias de festa. Com o tempo, Gilda não resistiu à nostalgia e adoeceu. Tinha saudades dos campos cobertos de neve da sua terra natal. O rei mandou então plantar milhares de amendoeiras para que, chegada a Primavera, cobrissem os campos de branco, como se de neve se tratasse. Ano após ano, o Algarve continua a enfeitar-se com um manto de flores brancas. A lenda é pitoresca mas José Saramago, no livro Viagem a Portugal, sugere que o tempo que levam as pequenas árvores a crescer tornava impossível a engenhosa solução do rei. Por isso, o povo passou a pintar as casas de branco. A verdade é que a arquitectura típica assim o obriga e o orgulho dos proprietários leva-os a renovar a cal todos os anos, como sinal de asseio. Lendas à parte, o facto de a cor branca ser uma potente reflectora da luz quente do sol justifica esta opção estética.

    8 – Golfe

    Se ouvir termos como drive, eagle, tee, pin, shot, hole in one, fore ou handicap está no meio de um dos campos de golfe do Algarve. O clima ameno e a fraca precipitação permite-lhe ser um dos poucos destinos da Europa onde é possível jogar durante todo o ano. Os campos algarvios têm como característica principal percursos pouco acidentados e um silêncio só quebrado pelos sons do quotidiano das aves locais. Alguns dos campos estão entre os melhores do mundo pela excelência do desenho e cuidados de manutenção. Tudo começou com a inauguração do emblemático campo da Penina, em 1966, desenhado pelo inglês Sir Henry Cotton e construído nos terrenos alagadiços de uma antiga plantação de arroz. As autoridades portuguesas contribuíram com o donativo de 350 mil árvores: eucaliptos, pinheiros e espécies nativas que dão à Penina o seu carácter único. Hoje, o triângulo dourado do golfe algarvio está entre os greens da Quinta do Lago, Vale do Lobo e Vilamoura. Mas os campos verdes estão em expansão através do território e, recentemente, o lendário campeão espanhol Severiano Ballesteros trabalhou na concepção do campo da Quinta do Vale, nas margens do Rio Guadiana.

    9 – Oeste selvagem

    A motorizada abandonada no topo da falésia é sinal de que um pescador desceu as arribas em busca do jantar. O nível de dificuldade aumenta com os voos rasantes das aves de rapina e os berros das gaivotas. Mais à frente, nos rochedos em volta de Vila do Bispo, homens protegidos por fatos térmicos são atingidos por ondas espumosas enquanto arrancam da pedra os percebes, petisco obrigatório nos restaurantes da zona. Território de praias soberbas, de gente corajosa e aventureira, de javalis, texugos, raposas, gatos-bravos, do lince ibérico e das últimas lontras em habitat marinho, a Costa Vicentina está protegida pela designação de Parque Natural desde 1995. Entre a romântica praia de Odeceixe e a vila piscatória de Burgau estende-se um paraíso natural onde se encontra a maior diversidade de organismos vivos da costa oeste portuguesa. Foram já identificadas 750 espécies de plantas, 200 espécies de aves e 460 de algas. Só falta catalogar a espécie que passa o dia a cavalgar as ondas em cima de uma prancha de poliuretano: o surfista. O oeste algarvio é coroado pelo Cabo de São Vicente, sempre varrido pelo vento, e que na Idade Média era considerado o último pedaço de terra. “Não é só o fim da Europa, mas de toda a terra habitada”, escreveu o filósofo grego Estrabão. A vila de Sagres é hoje modesta, mas aqui terá funcionado a escola de navegação fundada pelo Infante D. Henrique e aqui terão sido construídas as caravelas que viajaram por mares até então desconhecidos.

    10 – Noites Escaldantes

    Reserve algum tempo para estudar a flora nocturna do Algarve. Em Agosto, quais flores selvagens a brotar nos campos, é ver florir em cada esquina algarvia bares, discotecas, clubes, lounges, pubs, esplanadas. Aqui fica uma lista de alguns obrigatórios da noite algarvia. Na Quinta do Lago, o T-Clube é um clássico de ambiente selecto e sofisticado. Ao lado, fica a Trignometria, ponto de paragem obrigatório para os sub-21. No topo da falésia da Praia da Albandeira, em Lagoa, o Lounge Zero éum sunset bar com soberba vista para o mar. Também a mirar o azul do Atlântico, na Praia de Santa Eulália, em Albufeira, há o Le Club, onde o avançar da noite dita a transformação do lounge em discoteca. A novidade em Vilamoura é o Puro Beach, que promete noites animadas no Tivoli Marina Vilamoura, onde também opera o Faces Beach Club, da estilista Fátima Lopes. Em todos eles há festas temáticas durante o mês: anos 80 e Festas Brancas serão algumas das mais concorridas. À margem das festas e clubes mais badalados, várias baías da costa algarvia, como a praia dos Caneiros (Ferragudo), Prainha (Alvor) e Falésia (Vilamoura), têm vindo a conquistar os noctívagos com os seus bares e lounges semeados à beira-mar.

    por Manuela Carona

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