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    Carmen Miranda, Brasil

    2010/07/30  

    A história da Brazilian Bombshell que conquistou Hollywood e deu o samba a conhecer ao mundo. Carmen Miranda nasceu em Portugal, mas o seu coração era “100 por cento brasileiro”.

    Carmen Miranda, portuguesa de Marco de Canavezes, fez o Brasil olhar para o espelho e descobrir nele o samba e a alegria. Depois, carregada de frutas exóticas e de balangandãs, exibiu essa personalidade na Broadway e pôs os americanos a cantarem na língua de Camões palavras com ritmo de pandeiro, tamborim, cuíca e violão. Seguiu-se Hollywood e o estrelato à escala mundial. Nunca uma mulher fora tão famosa na história do Brasil. Os turbantes da “garota notável” ditaram moda e usavam-se, quer nas cabeças feministas nova-iorquinas, quer nos “salons” parisienses. As mulheres admiravam-lhe a sensualidade, a elegância natural e a voz, os homens desejavam-na, seduzidos pela graça maliciosa e pela mulher sensual que gostava de flirtar, mas principalmente, de ser amada por todos.

    Carmen Miranda foi a maior estrela do disco, do rádio, do cinema e dos palcos brasileiros, nos anos 30 do século XX. Por essa altura, o Rio de Janeiro assistia rendido ao sucesso daquela que era recordista em gravações, vendas, cachets e salários, mas também na adoração que lhe tinham o público e a imprensa. Talvez se reconhecessem nela, alma simples e coquete, feita do samba e da alegria do povo brasileiro. Uma alegria até então escondida por detrás da herança portuguesa do fado e da melancolia trazida das plantações de açúcar.

    Raízes lusitanas

    Várzea de Ovelha, aldeola do concelho de Marco de Canavezes, fica no Norte de Portugal. Foi nesse fim de mundo que nasceu, no dia 9 de Fevereiro de 1909, Maria do Carmo Miranda da Cunha. Os pais, José Maria, um simples rapa-queixos (barbeiro) e Maria Emília, pouco mais tinham para lhe oferecer do que o chão de terra batida da casa de pedra onde moravam. Não fosse a gravidez de Emília e já teriam zarpado rumo ao Brasil.

    Carmen, assim baptizada pelo tio em homenagem à popular ópera Carmen, de Bizet, chegou ao Rio de Janeiro com dez meses e oito dias. A cidade onde desembarcou era tão portuguesa como a terra que tinha deixado. Na época, numa população de um milhão de habitantes, o Rio era a terra adoptiva de 200 mil cidadãos nascidos em Portugal. Sem contar com várias gerações de luso-descendentes.

    Apesar das dificuldades, a família foi crescendo e Carmen teve oportunidade de completar a instrução escolar. Em 1923, com 14 anos, seguiu o caminho da irmã mais velha, que, tal como ela, se destacava por ser bonita, por gostar de cantar e representar, por costurar modelos copiados de figurinos estrangeiros e pela sua elegância natural e alegria esfuziante. O primeiro emprego foi como aprendiz no atelier de chapéus onde a irmã trabalhava e foi atrás do balcão que conheceu o primeiro namorado, Mário Cunha, remador do Flamengo e filho de boas famílias, com quem tomou contacto com a socialite carioca. Havia ainda o fascínio pelas starlets dos filmes a que assistia na Cinelândia. O starsystem inventado por Hollywood contagiara o mundo e Carmen Miranda, como milhares de outras raparigas, sonhava com uma vida de estrela cinematográfica.

    A escalada do sucesso

    Um dia, um cliente da sua mãe – que geria uma pensão diurna na Lapa, onde moravam – recomendou-a ao violinista e compositor Josué de Barros. Ao vê-la, Josué percebeu logo que a rapariga tinha “it”, palavra importada dos States, para definir mulheres com carisma. A estreia aconteceu em Janeiro de 1929 no Instituto Nacional de Música. Conta Ruy Castro, autor da biografia Carmen: “Ao subir ao palco era ninguém, dez minutos depois, ao descer dele, os aplausos entusiasmados já lhe conferiam a sua identidade: Carmen Miranda era de uma graça e de um rebuliço nunca vistos.”

    Em finais do ano, a editora discográfica RCA Victor ouviu-a e contratou-a com duas cláusulas curiosas. Só cantaria música brasileira e deveria ser escondido o facto de ser portuguesa para não pensarem que era cantora de fados. Em 1930, saiu o seu primeiro disco e, antes do Carnaval, cruzou-se com Joubert de Carvalho que escreveria para ela “Taí”, a marchinha que consagrou Carmen de forma fulminante num Carnaval tão rico musicalmente que, diz Ruy Castro, “dividiria a música popular brasileira em antes e depois daqueles dias de Fevereiro de 1930.” A vida da artista e da sua família também não voltaria a ser a mesma. “Taí” vendeu 35 mil discos e Carmen era cada vez mais famosa.

    Seguiram-se anos de sucesso e de vida airada, com temporadas teatrais nos principais centros culturais do país e em Buenos Aires, na Argentina, onde a música brasileira, pela voz de Carmen, começou a ser cantarolada pelos exigentes ouvidos porteños e a ganhar projecção internacional. Como diria a própria: “Foi um “chuá’ completo!”

    Carmen estava a fazer uma revolução na música brasileira. Para o público, a intérprete de êxitos em nome próprio como “O Que É Que a Bahiana Tem?”, “Mamãe eu quero” ou “Chica-Chica-Bum-Chic” e de hits emprestados como “Chiquita Bacana” ou “Cidade Maravilhosa” (da sua irmã Aurora Miranda) era a primeira mulher brasileira a criar uma personalidade pública e a viver dela.

    Sem fronteiras

    Em 1939, aos 30 anos, rica, bonita e independente, a diva do Brasil aceita novo desafio e parte à conquista de Nova Iorque e do mercado mais disputado do mundo. Sem falar uma palavra de inglês, bastou a sua estreia numa revista musical da Broadway para se tornar uma estrela. Em semanas, encheu páginas de revistas como a Life, a Look, a Vogue, a Esquire, ou a Harper’s Bazaar e vendia publicidade como pãezinhos quentes. Todos queriam Carmen, que partira dizendo, “vou botar tempero brasileiro no gosto e no goto daquela boa gente… Nos meus números não vai faltar nada: canela, pimenta, dendê, cuminho…”.

    Mas Carmen levava consigo muito mais que especiarias. Os americanos estavam a seus pés e Hollywood acenava-lhe com fama a uma escala nunca sonhada. No entanto, a Brazilian Bombshell, continuava a ser “aquela mesma pequena simples, agradável, camarada, sem vaidade, que todos conhecem aí no Brasil” (Revista O Cruzeiro, Rio 30-3-1940), e que, com o seu coração “cem por cento brasileiro”, dava a conhecer ao mundo a riqueza musical do país que a adoptara.

    Ao longo dos anos 40 e 50, a diva somou sucessos em Hollywood, entrando em 15 filmes e contracenando com outros nomes míticos como Dean Martin, Elizabeth Taylor, Bing Crosby e Frank Sinatra. Com grande desgosto seu, o Brasil nunca compreendeu a dimensão da sua lenda, não lhe perdoando os 14 anos que passou sem regressar ao país. Poucos sabiam do drama íntimo vivido pela mulher que, em 1946, era a artista mais bem paga de Hollywood. Depois de um casamento infeliz com o americano David Sebastian, Carmen entregou-se ao álcool e aos barbitúricos na sua mansão de Beverly Hills e foi já muito debilitada que, em finais de 1954, regressou ao Brasil. Recuperada, haveria de voltar para Hollywood, mas o seu coração agitado parou aos 46 anos, na madrugada do dia 5 de Agosto de 1955. Quando o seu corpo embalsamado chegou ao Rio de Janeiro, meio milhão de pessoas acompanharam o cortejo fúnebre, cantando baixinho “Taí”.

    por Patrícia Brito

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