Cidade acesa na distância
Em 1998, a jornalista Rita Sousa Tavares visitou pela primeira vez Florença na companhia da avó, a poetiza Sophia de Mello Breyner. Este é o relato dessa viagem onde aprendeu a olhar as cidades.
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As linhas pretas dos carris começam a cruzar-se formando trilhos entrelaçados como franjas desordenadas de um tapete. Cada vez mais densas, essas linhas anunciam a chegada a uma estação de comboios com muito tráfego. Segundos depois, soa na cabine “ Prossima stagione: Santa Maria Novella – Firenze Centrale”.
A sensação da chegada, bem como a de reencontro, dispara-me sempre as pulsações. Neste caso ainda mais. Trata-se do encontro entre uma avó e uma neta, sem telemóveis, marcado para as 12 horas de um sábado de outono na estação de comboios de Florença. Devia ser proibido usar o telemóvel nos encontros com as pessoas de quem verdadeiramente gostamos. Perde-se muito mais do que se ganha. Ganham-se uns segundos, mas o que se perde não é convertível nas medidas do tempo: será que ela me encontra no meio da multidão? Ela, tão frágil e pequena, no meio de uma enorme e barulhenta estação de comboios?
Na realidade, estivéramos juntas há pouco tempo, mas quando ouço, diluída entre tantas e tantas vozes, a sua – “ Rita! Rita! Estou aqui!” –, caímos nos braços uma da outra como se uma imensidão de tempo e de espaço nos separasse.
Corria o ano de 1998 e eu estudava Relações Internacionais em Turim, ao abrigo do programa Erasmus. Tudo começara uns dias antes, quando recebi um telefonema da minha avó Sophia, no exato momento em que tentava participar aos carabinieris um assalto à minha casa. Tentei explicar-lhe que não era a altura mais apropriada para marcarmos um encontro, mas ela pouco se deteve na conversa.
“– Chego a Florença na sexta-feira à tarde…
– Mas avó, não estou em Florença, estou em Turim…
– Não faz mal querida, quero ir consigo a Florença. Apanhe um comboio e vá lá ter!”
Era a primeira viagem que fazia com ela em Itália, e também a minha estreia em Florença. Não sei quantas vezes lá fora a minha avó, provavelmente nem ela fazia ideia. Visitar cidades italianas como Florença, Veneza, Roma e Perúgia, as Ilhas Gregas ou mesmo o Partenon, em Atenas, fazia parte de um exercício repetitivo, de uma espécie de ritual moral que se impunha sem qualquer obrigação ou consciência. Mais do que uma fonte de inspiração para a sua obra poética, o ritual das viagens permitia-lhe testemunhar o que há de mais próximo com o equilíbrio moral e estético do universo. E ela ficava lá, intata e imóvel, o tempo que fosse preciso, numa contemplação absoluta do divino, numa conversa interior travada com os Deuses de todas as coisas, cuja linguagem só ela compreendia.
Engraçado encontrá-la ali, no meio da minha vida que se tentava emancipar. Demos o braço e começámos nesse exato momento a nossa viagem juntas por Florença. Depois de largarmos a mala no hotel, descemos sem pressa a Via dei Calzaioli, que liga o Duomo à Piazza della Signoria. A primeira paragem deu-se no Duomo, a magistral catedral que demorou seis séculos a ficar concluída e cuja fachada, construída com enorme minúcia, é feita de um mosaico gigante de minúsculas peças de mármore colorido. Desviámo-nos depois por instantes para espreitar a Piazza della Repubblica, onde bebemos um café no Gilli, a mais emblemática pastelaria da cidade, e logo depois voltámos à Via dei Calzaioli para continuarmos em direção à Piazza Della Signoria.
Gozando cada passo antes de entrarmos na praça de todas as praças, o meu entusiasmo ia crescendo com as descrições feitas pela minha avó. Na Piazza della Signoria, escolhemos mesa numa esplanada e, com toda a calma e silêncio que o momento impunha, saboreámos, alheias a tudo o que se ouvia e movia, a beleza indescritível da praça em L, que nada tem de simétrico mas onde tudo se equilibra. Por várias vezes tentei romper aquele nirvana silencioso, mas ela manteve-se ligada à praça, ao cigarro e ao tempo suspenso, demasiado abstraída para poder ser interrompida por uma conversa.
Depois explicou-me que o David original de Michelangelo não era o que avistávamos da esplanada, que esse é apenas uma réplica, e que o original se encontra dentro do Palazzo Vechio. Falámos também do reformista dominicano Savonarola, que, no dobrar do século XV para o XVI, foi queimado em plena praça por pregar contra a Igreja Romana. E ainda de Lourenço de Medici, do corredor da Signoria – um autêntico museu de esculturas ao ar livre –, da Academia, do relógio que na praça indica o meio-dia solar, das fachadas, da arquitetura e de tantas outras singularidades que tornam aquela praça única. Visitámos depois as galerias degli Ufizzi, parámos em frente ao nascimento de Vénus de Botticelli e continuámos até ao rio Arno, atravessado pela fabulosa Ponte Vechio, com a fachada carregada de pequenas lojas onde se vende ouro, prata e outras atrações de Florença.
No final do dia passámos ainda numa das mais antigas sapatarias da cidade, um clássico onde comprar um par de sapatos pode transformar-se numa experiencia de luxo pelo serviço e pela hospitalidade, e onde, distraída, enquanto esperava que o seu cartão de crédito fosse aprovado pelo sistema de pagamentos, a minha avó saiu da sapataria com os seus sacos e com os de uma turista americana que também aguardava pagamento. Segundos depois, corriam desenfreados atrás do táxi que entretanto apanháramos, o vendedor, a turista americana e o segurança da sapataria.
Foram quatro dias inesquecíveis, onde o tempo demorou o que tem que demorar e em que tudo o que não foi visto não se perdeu, porque ela nunca contabilizava o que via ou o que deixava de ver, nem tinha guias, nem roteiros, nem mapas, nem planos, nem reservas para almoçar ou para jantar, apenas aceitava as sugestões dos amigos locais. Portava-se como alguém que vem de fora e não domina o chão que pisa, mas sabe tirar partido de cada passo que dá, como se Florença lhe pertencesse legitimamente. E pertencia-lhe, como vim a perceber. Não por saber, e não sabia, de cor os nomes das ruas, ou por conhecer os melhores restaurantes, museus, galerias e lojas, ou por ter dezenas de fotografias tiradas neste e naquele lugar, mas por saber olhar Florença como ninguém. Percebi nessa viagem com a minha avó Sophia que as cidades não passam a fazer parte de nós quando as conhecemos muito bem, nem mesmo quando as habitamos, mas apenas quando aprendemos a olhar para elas. Percebi nessa viagem que quando não sabemos olhar para as coisas é como se nunca as tivéssemos visto e o tempo encarrega-se de transformá-las no negativo de uma fotografia que nunca foi tirada. Só se tornam inesquecíveis quando as sabemos olhar e é assim que as cidades ficam para sempre acesas na distância: “Há cidades acesas na distância, magnéticas e fundas como luas”.
Em 2005, no âmbito das distinções que tem efetuado a personalidades portuguesas, a TAP batizou um avião da sua frota com o nome da minha avó e coube-me apadrinhar, com uma enorme honra, esse momento. Ao viajar para Itália no outono passado, exatamente dez anos depois desta viagem a Florença, e por pura coincidência, ao entrar no avião, pude ler em letras bem visíveis – Sophia de Mello Breyner – poetiza portuguesa.
por Rita Sousa Tavares
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