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    Gastronomia algarvia

    2010/07/30  

    Há mais do que peixes e mariscos frescos no pedaço de terra português com a maior concentração de restaurantes com estrelas Michelin.

    É uma injustiça grande para o Algarve reduzir a sua gastronomia aos peixes e mariscos sujeitos aos autos-de-fé. Ou seja, aos comeres da beira-mar. É que, fora das rotas habituais, há outros Algarves: o serrano, que faz fronteira com o Alentejo; e o do barrocal, a faixa intermédia que faz a transição entre o mar e a serra. Esta riqueza geográfica influencia directamente a alimentação dos seus habitantes, havendo, por isso, uma cozinha algarvia com personalidade própria.

    No litoral, a base da alimentação são os produtos do mar. Destacam-se a sardinha, o atum e os bivalves, com protagonismo para as amêijoas e as conquilhas, preparados na cataplana, com arroz ou papas de milho – o célebre e saborosíssimo xerém, prato, tudo o indica, de origem árabe.

    O barrocal, mais a norte, também consome peixe, mas a agricultura fornece legumes frescos e alguma carne, o que enriquece a ementa. E a serra, que liga o Algarve ao Alentejo, é o reino da carne de porco (fresca e salgada, sendo famosos o presunto e os enchidos serranos algarvios) e da criação doméstica, galináceos, por exemplo, com os quais se faz uma cabidela que tem a particularidade de ser confeccionada com batatas e não com arroz, como no Minho. São também serranos os melhores pratos de caça algarvios, como a sopa de lebre ou a perdiz estufada.

    Entre os produtos algarvios, merece referência a batata-doce de Aljezur, excelente com polvo, no cozido de repolho ou no feijão com batata-doce, outro cozido das terras algarvias mais altas. Como o são também a couve à Monchique e o cozido de grão ou o feijão com arroz à moda de Monchique.

    Para adoçar a boca, uma doçaria requintada, encimada pelos doces de figo, entre eles o figo de Maio ou queijo de figo, e os doces de amêndoa, muito semelhantes a alguns do Norte de África, outra herança árabe. E não nos esqueçamos dos dom rodrigos, embrulhos melados de fios de ovos, uma delícia absoluta.

    Há uma minoria de restaurantes algarvios afastados da mesmice dos grelhados. A sua oferta é constituída por comidas de tacho e de forno. Eis alguns: Veneza (Mem Moniz, entre Ferreiras e Paderne); A Eira do Mel (Estrada do Castelejo, Vila do Bispo); A Charrette (Rua Dr. Samora Gil, 30-34, Monchique); Camané (Praia de Faro, lado Nascente); e Adega Vilalisa (Rua Francisco Bívar, Mexilhoeira Grande). E, para não dizer que não falei de grelhados, aí vai um lugar excepcional, pela localização, qualidade da oferta de peixes e mariscos frescos e ambiente: Gigi (Praia do Lago, Quinta do Lago, Almancil).

    Mas há uma outra realidade algarvia na área da restauração que se impõe. É no Algarve que se  situa o maior número de restaurantes distinguidos com estrelas Michelin. Todos com uma, à excepção do Vila Joya (Estalagem Vila Joya, Praia da Galé, Albufeira), o único em Portugal que tem duas. São eles: Henrique Leis (Vale Formoso, Almancil); Amadeus (Encanxinas, Estrada Almancil-Quarteira,); Willie’s (Rua do Brasil, 2, Vilamoura); Ocean (Hotel Vila Vita Parc, Alporcinhos, Porches); e São Gabriel (Estrada da Quinta do Lago, Almancil). Há uma explicação para o mistério? Parece-me que sim e é simples: o clima algarvio é ameno, atraindo bons chefes de cozinha e gente com carteiras bem recheadas.

    por David Lopes Ramos

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