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Os bichos de Pomar
2010/07/30
Em Talento em Português
De sobrevivente a artista consagrado, Júlio Pomar, 84 anos, não perdeu a capacidade de se deixar “fecundar pelas imagens”. Prestes a inaugurar uma fundação com o seu nome, o pintor fala-nos das urgências de pintar… e de escrever.
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Um gato gigante de azulejo equilibra-se na parede da entrada e parece abrir a porta dos universos de Júlio Pomar. Lá fora, no luxuriante jardim onde decorre a conversa, um gato de carne e osso trepa o muro da casa do pintor. É um felino emprestado. Tal como foi emprestado o gato que serviu de modelo ao quadro Café, pintado em 1944, quando ainda estava na Escola de Belas Artes do Porto e frequentava as tertúlias dos cafés Majestic e o Piolho. “Vivia na casa da dona Luísa, uma senhora que alugava quartos a estudantes. Tinha um jardinzinho frequentado por gatos como este.”
Diz o escritor Mário Cláudio, no livro Júlio Pomar – Um Álbum de Bichos, que a partir deste quadro “haverá de se afirmar inúmera a bicharada, a manter presença cativa na obra de Pomar, e eis que falar do artista sem ela, ou dela sem o artista significaria reflectir sobre um corpo sem alma que o justificasse, ou sobre uma alma sem corpo que a sustivesse”. O próprio pintor, no livro Então e a Pintura?, explica o fim a que se propõe: “Inscrever na tela o vivo da vida”. Este amor aos animais remonta à infância, lembra. “Ofereceram-me um livre-trânsito para frequentar o jardim zoológico. Não me lembro se esse presente foi consequência de já ter mostrado interesse ou se contribuiu para me despertar mais. Naquela altura morava nas Avenidas Novas e ia a Sete Rios – onde está o zoo de Lisboa – uma vez por semana.”
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Hoje, ao vivo, bastam-lhe os melros e pardais. “Não me apetece ter animais fechados, tenho a passarada que anda em liberdade”. Música de fundo perfeita para os longos silêncios entre frases a que o pintor recorre antes de responder pausadamente a cada pergunta. Talvez porque considere “que se perde tempo a meditar sobre coisa nenhuma. As pessoas estão programadas para ter uma actividade absurda, e quando têm um momento em que podiam fazer uma contemplação do vazio, põem-se defronte da televisão e escapam-se. Não se vêem, não vêem os outros, vêm ‘macaqueamentos’ delas próprias. Sem ofensa para os macaquinhos”. As obras Chimpanzé com um funil e uma tesoura ou Chimpanzé com compasso, ou a Quadratura do círculo, que não se sintam lesadas.
A predilecção por chimpanzés e tigres, entre outros animais, não foi procurada. Não se sentou a uma mesa, nem se pôs a pensar quais os animais a incluir na obra. “As coisas vêm ter connosco. De uma maneira ou de outra cruzo-me com essas imagens e elas fecundam-me.” E assim nasce, criado pelo pintor, este “país de animais de estimação”, como lhe chama o escritor Mário Cláudio, onde a Arca de Noé, pintado em 2003, “é a memória de uma experiência, ou o total da experiência do meu cruzamento com o mundo.” É, no entanto, no ateliê que diz sentir-se protegido. O amigo António Lobo Antunes afirma que é o lugar onde Pomar “adquire uma espécie de presença animal”. Fora do ateliê, o artista deixa os sentidos gozarem a liberdade necessária para captar momentos únicos da humanidade.
Apreender o mundo
Esses momentos únicos são potenciados pela viagem, actividade que, segundo o pintor, está ligada a um todo: “Não sou uma pessoa de gavetas. Certa vez fui fazer umas férias a Albufeira, quando era uma aldeia piscatória. Obviamente que vou com o intuito de repousar, tomar banho, etc., mas vou todo”. A expedição à Amazónia para assistir à rodagem de Kuarup, filme de Ruy Guerra do final dos anos 80, é outro bom exemplo deste prazer. Uma viagem que estava planeada para uma semana, mas que durou dois meses. “Isto dá ideia de como sou a fazer planos e a cumpri-los”, observa. Mas quem é que não ficaria num lugar onde “a alegria de viver é uma prática diária”?
O pintor conta que da barraca tinha uma vista excepcional para o rio. Mais concretamente para “o lugar onde os meninos – crianças e adolescentes – vinham tomar banho, brincar e manifestar-se em toda a sua beleza. Era uma presença carregada de energia”. Tal como este era o momento lúdico do dia, o sentido de humor do artista revela-se na próxima tirada. “Costumo dizer que no dia em os índios tiverem água canalizada (risos), as mulheres vão ganhar celulite. São elas que fazem o abastecimento de água e a fonte fica a uma distância considerável da aldeia. O que lhes mantém a linha. Embora sejam jovens encorpadas, ali não há celulite. Se a tivessem não sei se o espectáculo seria tão bonito!”
Anedotas à parte, o pintor revela que nesta viagem, que resultou em quadros como Banho das Crianças no Tuatuari, se dedicou mais ao desenho. Isto para poder “estar numa atitude mais receptiva. Pintar poderia ser uma distracção dessa absorção de coisas”.
Ao longo do seu percurso houve alturas para tudo. “Houve momentos em que trabalhei com música e outros em que o silêncio foi música, com a licença de John Cage.” Durante um período esteve viciado em flamenco, noutro em Beethoven, mas assume que não há relação voluntária entre a música e os quadros que pinta. “Mesmo não havendo escolha, há escolha”, consente. Talvez por isso, não se revê na posição de retratista profissional. “Não me apetece nada montar uma banca e receber instruções.” Ainda assim, já fez retratos de figuras de relevo como Lévi Strauss e Mário Soares.
O pintor-poeta
Júlio Pomar tem vários livros publicados. No âmbito da poesia destacam-se as obras Alguns Eventos e Tratado Dito e Feito. Já na área do ensaio uma menção para o citado E então a Pintura?. Vasculhando os baús da memória, o pintor-poeta relembra que terá escrito os primeiros versos nos finais dos anos 30 quando frequentava a Escola António Arroio. Tendo como companheiro o grande poeta Mário Cesariny “a produção era abundante e permutada nas faltas às aulas, a ver os rebanhos nos campos do Areeiro”.
Hoje ainda é um acto que faz com urgência “por uma necessidade de corpo e alma”. Di-lo quando está a acabar um livro, mas segreda não ser muito metódico. “Gosto de ser chamado pela escrita. Dentro daquele conceito de que o masculino é autoritário e o feminino é passivo, costumo dizer que sou feminino. Gosto de ser levado a escrever e a pintar. Como que mandado”.
Sem querer instituir uma lei, confessa: “Quando escrevo ou pinto é como se estivesse a tocar um instrumento pela primeira vez. Mas há sempre uma diferença entre o que se pensa que se vai obter e o que sai realmente. É por esse jogo de diferenças, de avanços e recuos, que passa todo o trabalho, toda a alegria e drama da escrita”.
Outra consideração do artista em relação às suas obras é ter sempre a impressão de que “não tem a casa arrumada”, ou de que “a coisa não foi suficientemente dita”, o que, umas vezes, leva à destruição da peça, outras, a mudanças radicais. Mário Cláudio agrupa-o na família dos “curiosos da vida”, apetite, “gula no bom sentido” que desenvolve desde a adolescência. Foi esta fome que o fez rumar a Paris quando já era um artista consagrado, para estar mais perto dos mestres do mundo. Uma avidez que se que revela no arrebatamento que sente com obras como a Batalha de São Romano, de Paolo Uccello, os “esquemas intelectuais” de Poussin, a felicidade de Rubens ou a primeira paixão que foi Goya.
O trabalho prossegue. Acabou recentemente um selo para as comemorações do Centenário da República e, até ao fim do ano, prevê-se que a Fundação Júlio Pomar abra as portas ao grande público. “Este espaço foi pensado inicialmente como ateliê e depois como espaço expositivo”. É lá que poderá ver-se a obra do artista para quem “a coisa nunca está esgotada”. Para nós, também haverá sempre a possibilidade de lá voltar. E de a vermos como se da primeira vez se tratasse.
por Maria João Veloso
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